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Archive for abril \03\UTC 2008

Lembranças

digitalizar0018.jpg            “aos meus pais por ocasião de suas Bodas de Ouro”

 Quando somos pequenos as lembranças se fixam como quadros, pequenas pinturas, pequenos retratos da vida que levamos.Coisas que, por sua grandeza, ou insignificância, marcaram aquele momento vivido.

Assim foi com o dia em que resolvi subir na enceradeira e liga-la! O pavor daqueles momentos frenéticos até que a mamãe me salvasse ficou gravado pra sempre.

Nossas cabanas feitas de cobertor entre camas e cadeiras proporcionavam horas de distração, e mamãe permitia que aquele nosso refúgio ficasse montado, às vezes, por dias.

Cheiro de chuva até hoje me lembra aquelas tardes escuras, de chuva caudalosa, quando a mamãe nos colocava na janela para espiar a chuva, a correnteza que se formava no meio fio, os pingos escorrendo pelo vidro. Ficávamos os quatro quietinhos, reverentes admirando a tempestade.

Assim como cheiro de mixirica cravo me lembra nossa casa de Rio Claro, com seu quintal misterioso, onde moravam marimbondos, e o quanto me sentia protegida quando o papai estava perto, como se os bichos não pudessem me picar.

Lembro também do profundo alívio do papai quando chegou em casa, dia 31 de março de 1964, e nos encontrou lá, todos bem. Me abraçou muito forte, como se tivesse me perdido…e eu sem entender nada do que estava acontecendo. Ainda posso sentir seus braços me apertando.

Tivemos muitos bons momentos juntos: papai e mamãe se esforçaram e nos levaram a viajar pelo país, pois era importante conhecer a nossa terra: o sul, o nordeste, Minas Gerais, Brasília.

Na nossa primeira viagem fomos de fusca, literalmente disputando o espaço – conseguíamos dormir, os três pequenos, no banco de trás.

Vimos, literalmente, a construção da estrada que vai de Ponta Grossa à Foz do Iguaçu. Sabemos bem de todo o barro e da terra vermelha que hoje se esconde sob o asfalto.

Dormimos, uma vez, em um forte transformado em hotel, que parecia um castelo, bem perto do Chuí. Lá a mamãe levou um susto enorme, ao se ajeitar entre as cobertas e esticar os pés: Havia algo quente lá, ela pensou que fosse um gato… e deu um grito! …Mas era só uma bolsa de água quente!

Comemos pinhões assados na grimpa com os caminhoneiros que também estavam hospedados em um pequeno hotel à beira da estrada no interior do Paraná.

Conhecimento sempre foi muito importante, as leituras obrigatórias, o entender os livros primordial.

Quando estávamos na nossa adolescência chegou o Ricardo, que já não poderia ser parceiro de nossas bagunças infantis, era outra época.

Mas não menos divertida, pois pude leva-lo à faculdade para que minhas colegas conhecessem meu irmãozinho, ou leva-lo ver Branca de Neve no cinema, embora tenha precisado sair com ele assim que a bruxa ficou realmente malvada!

Sempre senti o apoio de você mamãe e de você papai em todas decisões que tomei. Sempre recebi bons conselhos e ponderações. Sempre me senti muito respeitada e acolhida em minhas resoluções.

Quando decidi me casar, quando chegaram minhas filhas, nos meus grandes momentos sempre os tive por perto.

Vocês são muito importantes para mim.

Selma.

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Vovó e Eu

vovo-e-eu.jpg       Vovó e Eu

Uma das lembranças mais queridas de minha infância é a de quando Vovó e Eu éramos vizinhas. Morávamos no mesmo prédio, mesmo andar, e, muitas vezes, quando Eu queria visitá-la, abria a porta da “minha casa”, subia em meu velocípede vermelho, atravessava toooooodo o corredor e, batendo com força a roda da frente na porta da “casa da Vovó”, anunciava a ela que Eu estava chegando!

A casa dela sempre foi meio mágica (como a casa das fadas deve ser), e cheinha de lugares especiais, encantados.

Havia um cuco na sala, que cantava cada meia hora. Era quando parávamos tudo o que estávamos fazendo e corríamos para vê-lo cantar. Às vezes o Vovô tinha a paciência de fazê-lo cantar todas as horas e meias-horas de uma só vez, para nos ver rir e aplaudir o cuco quando saia de sua casinha.

O Vovô tinha uma mesa enorme, cheinha de gavetinhas, entulhadas de coisinhas, que me faziam ficar horas entretida. Também tinha uma máquina de escrever, que Eu adorava!

Eu pensava que, quando ficasse grande, também ia querer uma daquelas para mim! Ela escrevia tudo certinho, bonitinho! E dava tanto trabalho escrever à mão…

Mas o mais especial de tudo era o quartinho de costura da Vovó. Tinha uma imensa mesa de passar roupas, onde duas vezes por semana a Dona Argemira vinha engomar as camisas do Vovô. Aí, Eu ficava brincando em baixo da mesa, só para ouvir as estórias de Dona Argemira, contadas em seu doce sotaque baiano.

Do outro lado do quartinho havia uma máquina de costura, daquelas pretinhas, com detalhes dourados e armação de ferro, com a pedaleira em baixo!   Gente!… Como ela era bonitinha!… Tinha duas gavetinhas de madeira entalhada em baixo do tampo, cheinhas de coisas estranhas que a Vovó usava: uma “tesoura de ferro”, sem fio, para engomar babados, um ovo de madeira para cerzir meias, carretéis, um cortador de pastel (de pastel???… o que aquilo fazia ali???), metros e metros de galões, rendinhas, sinhaninhas, soutaches, elásticos e sei Deus mais o quê!!!…

Vovó dizia que aquela máquina tinha sido de sua mãe, minha bisavó Joaninha, e que o Vovô, para modernizar, colocou um motorzinho.

Depois de algum tempo Vovó ganhou uma nova máquina (lembro que era meio verdinha) e seus trabalhos ganharam novo impulso com a novidade!

E quem lucrava?

Eu! Eu lucrava! Ganhava vestidos, blusas, shorts, calças, todos lindinhos, bordados, com babadinhos!…

Nunca me esqueci de um vestido rosa que ganhei de Vovó, e no mesmo dia, ao brincar, ele enroscou em um prego, abrindo um buraco enorme na saia…Ah, se não fosse a Vovó!!!…Eu, em prantos, ao lado da máquina, desconsolada, enquanto aguardava o socorro da Vovó. Prontamente ela fez uma aplicação em forma de flor azul sobre o buraco e… adeus choro! Meu vestido agora estava mais bonito ainda, pois ganhei uma flor na saia. Mágicas!!!

Anos mais tarde Vovó se desfez das duas máquinas e comprou uma nova. Fiquei com muita pena da “pretinha” ter ido embora. Era embaixo dela, montada na pedaleira, que Eu gostava de brincar de carro, de trem, de casinha, e de mais um monte de invenções.Mas a Vovó estava tão animada com a nova máquina, uma “Singer Facilita 288”, como ela gostava de dizer, que o seu entusiasmo nos convenceu. Ela fez muitos cursos de bordado à máquina, de costura, de varicor, de…  sei lá… ela estava sempre inventando, e quem ganhou com isso? Eu! Eu mesma, e minha irmã, meu irmão, meus primos, e…. todos os que ela ajudava com enxovaizinhos, roupinhas, coisinhas lindas que ela fazia (porque ela nunca ficava sem ter o que fazer…).

Um triste dia minha avó teve um derrame cerebral… Foi terrível. Ela quase morreu. E, quem sempre fez tudo sozinha, para si e para os outros, de repente não podia mais fazer nada! Nada, nada, nada. A não ser olhar…

Dessa época triste fica a lembrança de um dia, em que Vovó fez com que sua enfermeira a levasse até a máquina, a boa companheira de costura, na qual ela deu literalmente um banho de óleo, creio que para proteger nos longos anos em que ficou parada.

Vovó se foi.

E agora? Quem ficaria com a máquina de costura? Nenhuma das filhas e nem das netas costurava (Ninguém se aventurava perto da Vovó. Ela costurava tão bem!).

Bom, fiquei Eu. Levei-a para casa e deixei-a em um canto de meu ateliê. Aos poucos, comecei a namora-la, a entende-la, e a me aventurar a costurar com ela. Chamei um técnico da Singer que me disse que a máquina, apesar de tanto tempo parada, estava perfeita, graças ao bendito banho de óleo. Pequenos consertos, costuras retas, barras, paulatinamente fui aprendendo a fazer, e, quando minha irmã insistiu para Eu fazer o curso de patchwork que ela estava ministrando, aí a coisa pegou fogo!

Já fiz colcha, bichos de pano, enfeites de Natal, e estou cheia de projetos para até o fim do ano. Parece que descobri um mundo novo, mágico, só que agora Eu estou fazendo minhas mágicas, como Vovó fazia para mim, e, como espero continuar fazendo, um dia, para meus netos. 

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