Como contei a vocês, estou com meu joelho esquerdo operado, em recuperação de uma lesão na cartilagem. Processo lento, que me obrigou a usar muletas por seis semanas, depois passando a usar apenas uma muleta por algum tempo, para, depois de muita fisioterapia, voltar a andar normalmente.
É muito interessante como o não uso de um joelho vem redimensionar toda uma dinâmica. Fiquei muito mais lenta nas pequenas coisas do dia a dia, o sentar, o levantar, o caminhar, o banho e o enxugar o corpo depois, enfim todas as ações, mais demoradas, trabalhosas, os movimentos tem que ser muito bem pensados, planejados, sob o risco, em caso contrário, de haver um desgaste físico dobrado… O tempo passa a ter outra dimensão.
Também tem a questão de não conseguir carregar quase nada, pois as mãos estão muito ocupadas me carregando. Isto é o pior. Você fica dependente. Se quiser buscar uma fruta para comer, até chego a ela, mas, e como trazer? Complica… Tem que se inventar maneiras ou depender de alguém.
O trabalho no ateliê ficou prejudicado. Difícil dar uma boa aula sem poder ter a liberdade de me movimentar, ou de buscar alguma coisa para mostrar a aluna, enfim… Minhas alunas são muito pacientes.
Isso me levou a uma consciência maior do tempo em si, e de como ás vezes fazemos uma coisa já pensando na seguinte, sem aproveitar o momento presente. Hoje em dia só consigo fazer uma coisa de cada vez. E não adianta ficar nervosa, pois estou mais lenta. E pronto.
O que conseguir realizar, bem! O que não conseguir realizar, paciência! Não adianta sofrer. Não dá e pronto.
Outra questão é como o outro nos enxerga, ou como nós todos enxergamos alguém com dificuldade física… Senti na pele as dificuldades de uma pessoa deficiente. No meu caso uma deficiência temporária, mas uma experiência que todos devíamos passar. Passei a olhar com carinho as vagas de estacionamento reservadas para os que realmente precisam delas, e senti muita raiva ao ver no estacionamento do conjunto Kinoplex aqui em São Paulo, um lindo carro conversível ocupando a melhor vaga, a mais próxima do elevador, reservada para deficientes. E quem realmente precisava do espaço? Quem usa cadeira de rodas fica sujeito a uma vaga apertada? Como fica isso? Sem falar nas calçadas esburacadas, rampas íngremes, e outras coisas mais…
Tive também a experiência de emprestar um carrinho à bateria para me locomover em um shopping Center. É muito interessante a reação das pessoas. Algumas simplesmente não te enxergam… não vêem a pessoa com dificuldade de locomoção. Explico: precisava ir a outro andar. Diversas vezes o elevador parou em minha frente e foi embora, sem eu conseguir entrar, pois eu tinha que encaixar o carrinho na frente da porta estreita do elevador, mas antes precisava deixar sair quem estava dentro. Os passantes não me enxergavam e não paravam de passar em frente ao carrinho. Eu não conseguia movimentá-lo e entrar no elevador, que fechava a porta e ia embora!!! Até que um casal percebeu e chamou o segurança que veio em meu auxílio, “bloqueando o transito” dos passantes para eu poder entrar! Que stress.
Sei que este tempo vai passar, e um dia nem vou me lembrar das dificuldades que enfrentei. Mas sinceramente espero não me esquecer das lições aprendidas nesta fase, das pequenas atenções e manifestações de solidariedade recebidas de estranhos, pessoas solícitas, que às vezes com um simples abrir de porta manifestaram atenção e cuidado com uma desconhecida em dificuldade.




