Uma das lembranças mais queridas de minha infância é a de quando Vovó e Eu éramos vizinhas. Morávamos no mesmo prédio, mesmo andar, e, muitas vezes, quando Eu queria visitá-la, abria a porta da “minha casa”, subia em meu velocípede vermelho, atravessava toooooodo o corredor e, batendo com força a roda da frente na porta da “casa da Vovó”, anunciava a ela que Eu estava chegando!
A casa dela sempre foi meio mágica (como a casa das fadas deve ser), e cheinha de lugares especiais, encantados.
Havia um cuco na sala, que cantava cada meia hora. Era quando parávamos tudo o que estávamos fazendo e corríamos para vê-lo cantar. Às vezes o Vovô tinha a paciência de fazê-lo cantar todas as horas e meias-horas de uma só vez, para nos ver rir e aplaudir o cuco quando saia de sua casinha.
O Vovô tinha uma mesa enorme, cheinha de gavetinhas, entulhadas de coisinhas, que me faziam ficar horas entretida. Também tinha uma máquina de escrever, que Eu adorava!
Eu pensava que, quando ficasse grande, também ia querer uma daquelas para mim! Ela escrevia tudo certinho, bonitinho! E dava tanto trabalho escrever à mão…
Mas o mais especial de tudo era o quartinho de costura da Vovó. Tinha uma imensa mesa de passar roupas, onde duas vezes por semana a Dona Argemira vinha engomar as camisas do Vovô. Aí, Eu ficava brincando em baixo da mesa, só para ouvir as estórias de Dona Argemira, contadas em seu doce sotaque baiano.
Do outro lado do quartinho havia uma máquina de costura, daquelas pretinhas, com detalhes dourados e armação de ferro, com a pedaleira em baixo! Gente!… Como ela era bonitinha!… Tinha duas gavetinhas de madeira entalhada em baixo do tampo, cheinhas de coisas estranhas que a Vovó usava: uma “tesoura de ferro”, sem fio, para engomar babados, um ovo de madeira para cerzir meias, carretéis, um cortador de pastel (de pastel???… o que aquilo fazia ali???), metros e metros de galões, rendinhas, sinhaninhas, soutaches, elásticos e sei Deus mais o quê!!!…
Vovó dizia que aquela máquina tinha sido de sua mãe, minha bisavó Joaninha, e que o Vovô, para modernizar, colocou um motorzinho.
Depois de algum tempo Vovó ganhou uma nova máquina (lembro que era meio verdinha) e seus trabalhos ganharam novo impulso com a novidade!
E quem lucrava?
Eu! Eu lucrava! Ganhava vestidos, blusas, shorts, calças, todos lindinhos, bordados, com babadinhos!…
Nunca me esqueci de um vestido rosa que ganhei de Vovó, e no mesmo dia, ao brincar, ele enroscou em um prego, abrindo um buraco enorme na saia…Ah, se não fosse a Vovó!!!…Eu, em prantos, ao lado da máquina, desconsolada, enquanto aguardava o socorro da Vovó. Prontamente ela fez uma aplicação em forma de flor azul sobre o buraco e… adeus choro! Meu vestido agora estava mais bonito ainda, pois ganhei uma flor na saia. Mágicas!!!
Anos mais tarde Vovó se desfez das duas máquinas e comprou uma nova. Fiquei com muita pena da “pretinha” ter ido embora. Era embaixo dela, montada na pedaleira, que Eu gostava de brincar de carro, de trem, de casinha, e de mais um monte de invenções.Mas a Vovó estava tão animada com a nova máquina, uma “Singer Facilita 288”, como ela gostava de dizer, que o seu entusiasmo nos convenceu. Ela fez muitos cursos de bordado à máquina, de costura, de varicor, de… sei lá… ela estava sempre inventando, e quem ganhou com isso? Eu! Eu mesma, e minha irmã, meu irmão, meus primos, e…. todos os que ela ajudava com enxovaizinhos, roupinhas, coisinhas lindas que ela fazia (porque ela nunca ficava sem ter o que fazer…).
Um triste dia minha avó teve um derrame cerebral… Foi terrível. Ela quase morreu. E, quem sempre fez tudo sozinha, para si e para os outros, de repente não podia mais fazer nada! Nada, nada, nada. A não ser olhar…
Dessa época triste fica a lembrança de um dia, em que Vovó fez com que sua enfermeira a levasse até a máquina, a boa companheira de costura, na qual ela deu literalmente um banho de óleo, creio que para proteger nos longos anos em que ficou parada.
Vovó se foi.
E agora? Quem ficaria com a máquina de costura? Nenhuma das filhas e nem das netas costurava (Ninguém se aventurava perto da Vovó. Ela costurava tão bem!).
Bom, fiquei Eu. Levei-a para casa e deixei-a em um canto de meu ateliê. Aos poucos, comecei a namora-la, a entende-la, e a me aventurar a costurar com ela. Chamei um técnico da Singer que me disse que a máquina, apesar de tanto tempo parada, estava perfeita, graças ao bendito banho de óleo. Pequenos consertos, costuras retas, barras, paulatinamente fui aprendendo a fazer, e, quando minha irmã insistiu para Eu fazer o curso de patchwork que ela estava ministrando, aí a coisa pegou fogo!
Já fiz colcha, bichos de pano, enfeites de Natal, e estou cheia de projetos para até o fim do ano. Parece que descobri um mundo novo, mágico, só que agora Eu estou fazendo minhas mágicas, como Vovó fazia para mim, e, como espero continuar fazendo, um dia, para meus netos.






Linda, a história com sua Vovó… eu fui criada pela minha Vovó Aracy, que foi a Mãe que conheci nesta vida.
Também herdei dela o amor pela costura.
Parabéns!
Obrigada Gigi! adorei sua visita ao blog. Minha Vó Litha era muito especial, sinto muito a falta dela!
Selma, obrigada pelo encantamento que você traz através de palavras e fotos.
Eu gostaria de encontrar um livro da Agatha Christie que gostei muito e neste livro, ela descrevia os detalhes dos panos e enfeites dos cômodos onde acontecia o romance.
Se algum dia tiver um tempinho, vou fazer força para encontrá-lo e ler de novo e tb vou recomendar à você.
Bj
Nanci
Selma, que linda a história da família. qdo. batí os olhos lembrei da sua avó, nos aniversários da família. Lembra que sou amiga da sua tia ? Pois é. Deliciei-me com tudo que descreveu e, sendo tb. avó, vou ter que deixar esta imagem para minha neta Isabela pois, lembro-me muito bem da máquina pretinha de costura da minha avó, que, por sinal, ficou comigo, coisa que adoro.
Bem, aqui estou, pois soube da sua nova oficina de artes. Já tenho o endereço mas falta o telefone. Pode me passar ? Muito sucesso e bjs. NILDA MARÍLIA
Fiquei muito emocionada com sua historia de relacionamente amoroso com sua avó…
Voltei ao meu passado, onde minha avó tambem era mágica e tinha um cuco que nos fascinava…acho que todos os avós são bençãos para quem pode te-los ao lado por muito tempo.
Quando me casei ganhei um presente maravilhoso, a avó de meu marido, pessoa boníssima, que nosso Pai do céu levou no final do ano de 2008 aos 98 anos .
Hoje também sou avó de uma linda menininha de 10 meses, da qual acompanho seu desenvolvimento através da internet, pois ela vive em Goias e eu no Paraná… não é facil. Pensei que um dia eu também seria uma avó magica…
pois adoro fazer meus artesanatos e contar histórias e lendas…
Desculpe o desabafo é que sua história levou-me por uma viagem maravilhosa entre o passado e o presente, mas e o futuro?????
Querida que Deus te abençoe por esses momentos.
Bjs